7 de julio de 2011

amanhecice


falecia a madrugada nos meus braços
se ressentia de gastura cansada,
um, de certo, ginge da barra do dia
que revoava por cima do mundo
– lá ao longe onde morre a vista –
e pregava nuvens-claras
desarreadas no céu-azul-passarada

(Angelo Riccell Piovischini)

Novo Horizonte, Feira de Santana – Bahia, 20 giugno 2011http://parolando.tumblr.com/post/6755628988/amanhecice

prega-olho

A Noite Estrelada (1889), de Vincent Van Gogh

http://parolando.tumblr.com/post/6755662974/prega-olho

a noite se avoluma
por cima do lombo de vaga-lumes,
soletra breus,
cavalga serpenteira em riba do vento,
se embola com o brilho do céu
num véu de nuvens,
mete medo em menino-amarelo,
se entoca pelo vão das ruas;
passadiços da alma.
se é de ser;
a noite, aperrêa, se impõe, encanta
e rumina a luz fosca da lua
até o lusca-fusca do dia.

(Angelo Riccell Piovischini)

Novo Horizonte, Feira de Santana – Bahia, 20 giugno 2011

2 de julio de 2011

Mariposa Luna

Mariposa Luna,
Olvidamos nuestro capullo
en un lugar cualquiera,
Como si te bastara volar sobre la llanura,
Y a mí, salir por donde quiera.

Mariposa Luna,
¿De qué color son tus alas?
A veces te veía verde – color esperanza.
A veces, te veía gris –  color tristeza.

Mariposa luna,
Te pinté en mis cuadernos.
Cuando niña me alumbrabas
y mis sueños contigo volaban.

Mariposa Luna,
Qué sobre mi piel reposes un momento.
Ven a contar mis lunares.
Ven a contarme un secreto.

Mariposa Luna,
Cuéntame un cuento de fantasía
Que esta niña mujer necesita
Creer que aún se sueña en estos días.


Ivana Oliveira, 2 de julio de 2011.

30 de junio de 2011

Paradoja

Los ojos,
En pareja,
Lloran
La Soledad.

Ivana, 02.06.11

Bem te via

by Eduardo Amorim in: http://www.flickriver.com/photos/tags/bemtevi/interesting/

Uma bela manhã
te vi passar, menina,
balançando as tranças
e a doce ave com sua melodia:
Bem-te-vi... bem-te-vi.
Tu guardaste os teus sorrisos.
Eu servia os meus à bandeja.
O pássaro cantava em meu lugar:
Bem-te-vi, bem-te-vi...
E eu dizia: Que assim seja!
Que bem te via, aquele dia...
Hoje, na hora amiga da tarde
passeio pela relva,
Não há (en) canto, nem menina.
Me vejo cabisbaixo
e o meu  Bem-te-vi calado.

17 de junio de 2011

Companheiras - Parte 2


Já era sexta-feira, fim de expediente, ao bar! Era momento de engolir a angústia com um bom drink. O grilo falante da consciência, através de uma lucidez alcoólica, lhe mostrava a que ponto havia chegado a desgraça de um homem, a sua desgraça. E após esvaziar mais um copo, mirou-se nele, viu seu reflexo naquele vidro embaçado.
A noite, com ares de boemia, parecia cantar para ele: “Desilusão, desilusão, danço eu, dança você na dança da solidão...”. Enquanto ele ainda filosofava mais alguns minutos com o copo vazio e a sua triste sina. Aparentemente conformado, pagou a conta e zigzagueou  até o apartamento. Entrou cambaleando, com mais vontade que fragilidade física para cair, estar junto à sujeira que se acumulava no chão era o seu desejo e tendo entregado seu corpo, adormecera reduzido à pequenez dos germes.
O sol despontava lá fora, mas o apartamento não se contagiava com a luz, era no máximo penumbra... Um homem caído ao chão, acordava com a roupa amarrotada e os pés calçados tal como chegara na noite anterior. Olhou ao redor, os móveis o observavam de cima, o porta-retrato com a foto de formatura parecia condená-lo, com aquela mão estendida para frente em juramento. Não tinha coragem de levantar-se ante o olhar do garoto de bata preta no retrato. Seriam a mesma pessoa? 
A cabeça parecia ter dobrado de tamanho, certas figuras lhe rondavam a mente: a da mãe que não conhecera e a da ex-esposa que ele havia enxotado de casa. “Quem disse que a mulher é sagrada?” Perguntaria se alguém estivesse ali... Era, principalmente, por causa delas que se achava jogado no piso da sala, inerte. Se ele fosse uma delas teria quebrado a louça, teria chorado ou feito qualquer cena dramática em público, depois apareceria diabolicamente maquiada, sobre os saltos, como se nada tivesse acontecido. Mas ele tivera esse destino, o de silenciar a própria desgraça, qualquer demonstração de fraqueza seria a gota d’água.
De repente, começava a ter fúria, a fúria que o fazia levantar e entrar no quarto ameaçadoramente. Lá estava ela, tão sua, tão quieta, seria capaz de odiá-la algum dia? Só sabia que aquela ira existencial lhe dava mais vontade de possuí-la, ela não era imagem para adoração, era para ser tocada e maculada, segundo a vontade dele... Sim, ele a domesticara para isso, ela estava ali por esse motivo, começou dando-lhe tapas na cara, ela gostava, continuava feliz ali sentindo o peso do corpo dele e estremecendo a cada bofetada recebida. Ele cada vez mais feroz, socava o seu ódio dentro dela, agarrou-a pelo pescoço apertando-o, mas ela continuava sem reação... 
Dessa vez o prazer pedia o extremo, mais do que tudo que já tinha feito, qualquer sinal de razão havia desaparecido da sua face, a libido e o desejo de matar se confundiam. Ela não cedia às suas tentativas de enforcamento, o que lhe dava mais ódio, ela dava trabalho pra morrer, feito um joão-teimoso quando alguém tenta derrubá-lo. O homem levantou-se, pegou a tesoura na gaveta e deu-lhe uma estocada certeira no ventre. Nesse momento, ele entrou em erupção, derramando sobre o corpo estendido na cama a lava esbranquiçada. Ela simplesmente ria o seu riso já flácido de boneca inocente.

Companheiras - Parte 1


Era noite quando ele chegava cansado da jornada ao apartamento escuro, onde o silêncio era majestade. Adentrava a sala desfazendo o nó da gravata, produzindo o máximo de ruído possível e lhe respondia o eco dos seus sapatos no assoalho.
Quase sempre, acendia todas as luzes, ligava a televisão enquanto comia vorazmente a pizza lambuzada de catchup, acompanhada de cerveja, olhando a tela sem dar muita atenção ao enredo. Logo, voltaria à cozinha para bombardear o estômago com qualquer coisa que lhe desse uma baita má-digestão. Pra depois queixar-se a quem?  
Numa dessas noites, após ter seguido sua rotina noturna, jogou a roupa num canto do quarto e dirigiu-se ao chuveiro, enquanto se lavava, observava a barriga proeminente. Porque tinha deixado de jogar futebol com os colegas? Quando já não tinha ninguém pra reclamar disso e os sábados sem nada pra fazer. Culpa daquela desgraçada! Tudo o que ela queria era afastá-lo dos amigos, que deixasse de fazer o que gostava para servir exclusivamente a ela.
E depois de mal-dizer mil vezes a ex-esposa, foi pra cama tentar se livrar das más lembranças e dormir. Não raro, levantaria sem sono pra ver algum programa sensacionalista ou conectar-se a um site de cybersexo. Virava a madrugada em bate-papos calientes que acabariam no prazer solitário. Só então pegava no sono ou o sono que o pegava de cheio, atrasando-o para o trabalho no dia seguinte.
Foi assim até seus olhos serem atraídos por aquela imagem em uma loja do Shopping, sempre que podia passava lá para vê-la, só faltava coragem, pior se tivesse outro interessado, tinha que chegar junto e logo, antes que alguém tomasse posse. Naquela noite, sonhou com ela. E no dia subseqüente, tudo se resolveu, do jeito que ele premeditara, ela era sua.
Entrou no quarto, ansioso, acendendo a luz... lá estava ela estirada na cama como a tinha deixado mais cedo: serena e calada. Sentia certo prazer em contemplá-la daquele jeito, era da maneira que ele sempre quisera. Sem muita dificuldade atirou pra longe o cinto e abriu o zíper, livrando-se da roupa em curto espaço de tempo. Feito uma fera faminta se lançou sobre ela, mergulhando profundo e, no desespero de ter passado por tanto tempo em abstinência a possuía, socando-lhe o membro bem forte. Se ao menos ela gemesse, gritasse... Mas, era tão cativa e isso lhe agradava tanto. O coração e o corpo eram uma coisa só, bombeando tudo quanto estivesse embaixo e ao redor dele. A cama iria agüentar? Nem importava, o prédio poderia ir a baixo, os vizinhos poderiam reclamar, alheio a qualquer conseqüência, o que ele queria era tê-la até acabar-se.
Não tardou muito, ambos jaziam lado a lado no leito, depois da batalha que faria de qualquer um vencedor e vencido ao mesmo tempo. A respiração ofegante, suor e sêmen ensopando a cama. Ele, após a desaceleração dos batimentos cardíacos, dormia. Enquanto ela ficava a velar-lhe o sono.
A excitação inicial foi virando obsessão, vício lascivo... já não saía com os amigos nem os convidava à sua casa, ela não deveria ser vista, era só sua, fora feita para ele. E qual não era sua sensação de liberdade.
Não era assim com Lilith, sua ex, que exigia mais tempo nas preliminares e se queixava do seu ronco. Lilith, não seria uma mulher de Atenas, era o oposto da sua nova companheira. Ela só pensava na sua carreira de executiva, em viagens, em seu ego. E ele? Estava sobrando mesmo naquele conto de 365 noites quase sem sexo. A traição não fora o pior delito... Foi ela quem quis ir embora, mas o marido assentiu prontamente... já que o único elo que poderia atá-los pra sempre fora lançado por sua genitora em algum fétido esgoto.
A vida desse homem, porém, ganhara novo sentido, tinha tranqüilidade, ninguém reclamava mais do assento do vaso sanitário respingado de urina. O apartamento tinha outro aspecto, tudo podia ficar pra depois, nada tinha urgência. A pia da cozinha estava pingando já fazia dias, mas isso não incomodava o sono dos amantes. Que ficasse assim, até que um dia ele tivesse paciência pra consertá-la.
Três meses naquela situação e ele começava a perceber que aquilo já não lhe bastava, ele queria mais, mais o quê? Tinha o sossego, se saciava no sexo e... Companhia? Alguém o disse certa vez que “o homem estava fadado a fazer escolhas”, sim, era verdade, ele a escolhera, tinha escolhido aquela vida, aquela rotina. Também sabia que tudo é efêmero, mas se assustou com a rapidez com que a sua paixão chegara ao fim...

10 de junio de 2011

O Infeliz Passageiro Felisberto


Ivana Oliveira, 13/08/08.


            Era segunda-feira, precisava dizer que era o seu pior dia? Pois bem, saíra de casa sem tomar café e caminhava em direção ao ponto quase arrancando os paralelepípedos, a cara amarrada por trás daqueles bifocais, cujo detalhe das lentes parece uma risadinha. Mas, o dono, ao contrário, nunca ria a essa hora da manhã. Era assim que começava a rotina de Felisberto, morador da zona urbana de Feira de Santana, cujo estado de ânimo nunca fazia jus ao nome, principalmente quando tinha que pegar o ônibus. Onde fora condenado a passar algumas horinhas do seu dia, “esmagado, sufocado” – Como se imaginava ele, cada vez que pegava a condução para o trabalho ou de volta pra casa.
Aos domingos ia a pé ou de bicicleta ao supermercado ou qualquer lugar possível, tudo para não ter que andar de ônibus. Táxi? Nem em delírios! Dizer que Felisberto era um homem econômico seria puro eufemismo. O único gasto supérfluo ao qual ele se permitia era com a sua “fezinha”, que era sagrada. Investir na sorte poderia garantir o sonho do carro zero e o adeus ao coletivo lotado.
            Se para ele o transporte coletivo era o inferno o ponto de ônibus seria o purgatório. Iniciar o dia ouvindo “olha o vale, vale-transporteeee” ou os cobradores de vans que gritavam: “Vai pa’ rua?”, já era o suficiente para aflorar seus calundus. E se alguém lhe perguntasse as horas ou se o ônibus que fazia a linha tal já tinha passado, ele apenas ignoraria pra não se contrariar mais, ainda teria que sobreviver ao empurra-empurra na hora de tomar o coletivo.
O ônibus ia sempre daquele jeito, passageiros carregados a vácuo e ele já entrava logo olhando os outros com desdém, se pudesse cobriria o corpo de espinhos para ninguém se encostar nem passar roçando nele. Parecia que todo mundo cheirava mal e já àquela hora era puro suor. E quanto mais cheio estava o veículo mais o motorista parava para pegar passageiros.  Raramente descia um filho de Deus e era ouvir: “Abre o fundo motô!” Apesar do asco que lhe causava esse coloquialismo, ele até se animava, acreditando que teria algum alívio. Mas, que nada!  Era aquele inferno! A mosca da música de Raul Seixas, “Você mata uma e vem outra em seu lugar”. Felisberto gastava as comparações: “parece uma lata de sardinha”, “isso é um navio negreiro” ou “é um carro de bois” (quando o motorista pisava bruscamente no freio).
...E chegando mais gente. “Arrasta esse buzu, motô!” – gritava alguém na maior algazarra.
            Felisberto, em pé, suava por cada orifício e nem podia vacilar em pegar o lenço para enxugar o rosto, se soltasse a barra de ferro uma outra mão rapidamente tomaria sua vaga, sem chances de retorno. Praguejava em pensamentos, xingava a mãe, a irmã, a madrinha ou qualquer parentesco feminino do cobrador e do motorista.  E para romper a monotonia um estudante de pré-vestibular soltou uma piadinha:
            -Ô, motorista? Você não estudou que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço?
            E o motorista, sem perder a piada respondeu rindo:
            -Já ouviu falar em milagre? Pois é, aqui cabem dois, três, quatro no mesmo espaço, é que nem coração de mãe.
            Dessa vez, Felisberto não agüentou o deboche, resmungou entre dentes:
            - Só se for da sua mãe, seu filho da puta! – mas, falou tão baixo que nem foi ouvido.
            A coluna lhe doía até o cóccix, deu uma olhada ao redor, era início de mês, o ônibus cheio de idosos que iam receber a aposentadoria. “Diabo desses velhos!” – dizia para si, odiando o fato de haver tantos lugares ocupados por idosos.
            Percebeu ao seu lado um menino de uns oito anos sentado junto da mãe. Olhou novamente com aquele rabo-de-olho, fuzilando o menino e a mãe. Esta por sua vez, entendeu a mensagem muda e puxou o filho para o seu colo dizendo-lhe:
            -Vem, filho, dê lugar a esse senhor idoso – enquanto olhava de relance para a nuvem acinzentada que cobria a cabeça semi-calva de Felisberto.
Ele prontamente aceitou o lugar sem ao menos agradecer, com a desculpa de que o comentário o havia ofendido. “Idoso? Era só o que faltava!” – Indignou-se.
            A medida que diminuía a distância para o trabalho seu mau-humor aumentava. “Ainda compro um carro!” – pensou verificando as horas, estava quase atrasado como toda segunda-feira. Ia entrar na empresa como um raio, passar o cartão e subir as escadas de ferro num impulso só.
Porém, esta segunda-feira não seria a de um “quase atraso”. O ônibus seguia pela Avenida João Durval quando de uma rua transversal, partia um carro na direção do ônibus. Bateu levemente de lado, sem prejuízos para o coletivo, já o motorista do carro perdeu o controle e se chocou de cheio contra um muro.
            O ônibus inteiro assistiu ao acidente, com a boca cheia d’água, aquela ânsia humana de ver a desgraça alheia e contemplar a carnificina. Sedentos por não perder nenhum detalhe, espremiam os passageiros que estavam do lado que dava vista privilegiada ao quadro lá de fora.
            - Você viu, menina? Estraçalhou o carro, imagine como não deve tá o coitado... – lamentava uma.
            - Misericórdia! – exclamava outra senhora fazendo o sinal da cruz.
            O zunzunzum continuava, enquanto olhos entre curiosos e piedosos espiavam pela janela. Felisberto, era uma exceção, não dava a mínima para o ocorrido, nem queria saber qual era a cor nem a marca do carro, ou se o motorista estava vivo ou morto.  “Antes ele do que eu”, seria um pensamento típico dele. E ainda mais rabugento, olhava o relógio a cada segundo, até que uma senhora obesa e de baixa estatura aproximou-se do seu assento pra também assistir a catástrofe. Os seios caindo sobre o braço de Felisberto, toda inclinada por cima dele, os olhos vidrados à janela. Felisberto explodiu:
            - Dá pra senhora tirar as tetas do meu braço?
            A pobre dona, encolhendo o busto avantajado, envergonhada e humilhada, afastou-se meio chorosa. Alguns estudantes riram e as pessoas de mais idade menearam a cabeça em desaprovação.
            “Gorda ocupa muito espaço, deveria pagar duas ou mais passagens. Ou nem deveria pegar ônibus.” – Pensou ele e dessa vez quase deu um riso sarcástico, sem se importar com a cena lá fora.
            Após prestar apoio ao acidentado, chamando a ambulância, o motorista volta ao volante aflito.
            Felisberto agonizava no assento, atrasos não eram tolerados pelo novo gerente geral, fosse qual fosse o motivo. Ia ser demissão na certa, ele já estava sob aviso...
Aqueles egoístas de lá do trabalho nunca davam carona. Sua sina era pegar o ônibus, era enfrentar o engarrafamento, encarar as gordas e aquele aperto insuportável do coletivo.
            Meia hora depois do acidente, enfim, Felisberto descia do seu “Trem Fantasma”. Após tantas torturas, exclamava internamente: “Ainda compro um carro!”.
            Adentrou os portões da empresa feito um demônio da Tasmânia. Ao subir as escadas, uma recepção diferente da esperada, as moças do telemarketing enxugando as lágrimas timidamente pelo corredor, uns sussurros, e alguém pergunta:
            -Já avisaram à esposa dele?
            -Estamos providenciando tudo. Gonçalves desceu pra pegar o carro, vai dar a notícia pessoalmente à esposa e o Rubens já entrou em contato com a funerária e seguiu para o hospital.
            - Que houve pessoal? – entrou Felisberto no círculo de lamentos...
            E o encarregado do setor de compras dando-lhe uns tapinhas nas costas explicou:
            - Nosso gerente geral sofreu um acidente de carro e... já chegou morto ao hospital, traumatismo craniano. Pois é companheiro... é fogo, heim! Perdemos um grande líder. Apesar do pouco tempo aqui, já era admirado por todos – e deu outro tapinha de leve com o semblante meio hesitante como quem tinha algo mais a dizer.
            Felisberto sentiu um quê de alívio interior, o fato de ter sido o seu chefe a vítima do acidente salvara sua pele. O atraso que poderia custar-lhe uma demissão estava perdoado. Deu um abraço no colega escondendo no paletó do amigo um leve ar de satisfação. O outro, chamou-o a parte, para uma revelação em um tom de voz ainda mais baixo:
- Olha amigo, eu nem sei se deveria te contar isso agora... Mas, ontem, eu estive na sala dele, o homem me contou em segredo... que ia te promover...
            Felisberto mudou de novo a fisionomia, seu rosto, sem nenhum vestígio de tristeza solidária, ficara rígido. Foi-se a oportunidade de ter um aumento, melhorar de vida, comprar o tão almejado carro. Meio confuso com tamanha notícia, seus sentimentos eram um mosaico de ira e frustração. Apenas pensava na sua oportunidade de subir de cargo... Atropelada por um ônibus?!
            Não houve expediente na empresa, os funcionários foram dispensados em luto ao gerente.
            Em casa, Felisberto entrou cabisbaixo, a chance perdida, era tão difícil ser reconhecido naquela empresa, tantos anos trabalhando no controle de qualidade e nem carro tinha. Quando alguém, enfim, se dá conta do seu esforço, a morte, num golpe fatal, arranca-lhe a vida e de Felisberto, a glória. “Perdemos um grande líder”, repetiu para si mesmo as palavras do colega.  Sua esposa, de súbito, interrompe seu devaneio:
            -Beto? Chegando cedo pro almoço, que foi?... – ao que ele não responde, vira para a mulher fazendo muxoxo, sem mirar no rosto, apenas passa os olhos naquele corpo tão maltratado pelo tempo, enquanto pensa: “Se ao menos eu tivesse uma amante! É...Sem carro tudo é mais difícil”.
            A mulher, indiferente ao amuo do marido, continua o papo, metralhando as queixas sobre as contas de casa que não foram pagas, o gás que estava por acabar, e em seguida, mudando de assunto, acrescenta:
            -Ah, rapaz, e não é que teu chefe teve aqui de carro logo depois que tu saiu! Perdeu uma carona da boa hoje, né?

7 de junio de 2011

Νύξ

 William-Adolphe Bouguereau (1825-1905) - La Nuit (1883).

Νύξ, deusa enlutada e sensual escondendo suas curvas delicadas e assaz tentadoras.  
Νύξ, a quem tememos e depositamos nossos desejos mais indecúbitos.  
Νύξ, uma rainha, uma fera, um fantasma a penetrar nossas carnes e cernes.  
Νύξ, pétalo de palabras escorrendo pelos lábios desatentos do ébrio sentidor de palavras.

 Autor: Angelo Riccell Piovischini

5 de junio de 2011

Um caminhante

Os pés vão pisando a areia molhada,
As lágrimas secam no rosto,
E o mar apaga as marcas.

Apreciando a bruma,
Vai passando passo a passo...

E o caminhar se faz mais suave,
E o pensar mais apurado,

E então o caminhante se revira cansado
No consolo do travesseiro,
Morada dos sonhos
e presságios.

Ivana, 24.04.11

3 de junio de 2011

Cada poeta com a sua droga

Baudelaire escrevia sob os efeitos
do haxixe ou do ópio...
Eu, sob os efeitos do açúcar
e da cafeína,
rabisco um poeminha óbvio.


Ivana, 02.06.11

Poema singelo para Nix

Oh, Noite, deusa viúva!
Colecionaste as solidões
dos astros no teu véu
e dos olhos, nesta rua.

Ivana Oliveira, 02.06.11

31 de mayo de 2011

Vaga rosa



Sinto saudades e,
Olho para trás vagarosa...
Era só silêncio e absoluta escuridão.
Entre as frestas do tempo,
Esses instantes perdidos.
Ouço ruídos da rua,
Vaivens de veículos.
À janela do meu sossego
Aqui estou, nada espero...
...e o futuro é apenas uma porta entreaberta.



Ivana, 27 de mar/2011.

Desastre

Sob os escombros
Dos meus versos
Sonhos de um porvir
Que não virá
Jamais.

25 de mayo de 2011

Dupla flor


(eu também falo das flores)

Era, pois, aos olhos
uma orquídea rubra
Desabrochando-se ao toque das mãos tuas
Com quanta maciez
Suas pétalas rosáceas te alisam a púbis
E se abrem generosas
Para que sugues o seu néctar
E sem que esperes,
Flor carnívora se torna
Audaz, te aperta rigorosa
Dupla flor que de bela e suave
Sabe a néctar do amor
E se abala em paixões ardentes

Verônica  Campello.

Cúmplices


a Safo
Tu me entendes, amiga;
Sabes onde inicio
E  onde termino.
Tua língua tateia
Todo meu íntimo ser finito.
Não percamos mais tempo
Quero fugir contigo
Dos olhos que espreitam
E  condenam.
Na ilha de Lesbos
Oh, doce amiga!
Viveremos
 Sós.

Verônica  Campello, 25/05/2011.

22 de mayo de 2011

Lucidez

Aquelas lembranças?

Entulhos na memória!

A última ilusão

morrera engasgada

em champanhe barato.

No dia seguinte

o despertador chama:

- É dia de branco!


Ivana Oliveira

Triste partida

Um barco de papel navega

tranqüilo

Sob o olhar do menino

Sobre a lama

levado

por incertos ventos

 
Ivana Oliveira

18 de mayo de 2011

Assembléia dos Bichos

Ivana Oliveira, 14 de maio de 2011.



Era um tal de muu muuu, quá quá, cococó... Aqui, ali e acolá. E depois de algumas horas entre mugidos, grasnidos, cacarejos, relinchos e roncos, acontecia que na granja estava toda a bicharada convocada e comparecida para uma tal assembléia que em pratos limpos a situação colocaria.

De um lado vinha o Seu Galo de crista baixa, todo ofendido, reclamando que a fama de brigão que ganhara era apenas um mal-entendido.

Em seguida veio a sua esposa aprumando asinha, dizendo ser injusto o dito que quem é lelé da cuca tem cérebro de galinha.

E a amiga Dona Vaca foi logo se defendendo:

– Se dou leite de graça por que tanta gente chama o avarento de mão-de-vaca?

E num zurrado desgovernado gritou o Seu Burro muito irritado:

– Se tão belas manobras posso fazer e transporto cargas com tanto cuidado, por que dizem o meu nome a quem não é estudado?

– Pois é, companheiro! – disse outro quadrúpede, relinchando elegante. – Dizem tanta coisa injusta! Veja só o meu caso, mesmo eu sendo de fino trato, ao indivíduo grosseiro lhe dão o nome de cavalo!

– Eu também me queixo muito – disse o Seu Porco indignado – Pois tomo banho o dia inteiro e ainda falam pelos cotovelos que porco não tem asseio!

Logo chegou o Seu Pato com seu andar peculiar e foi logo resmungando a dupla fama, pois se pato é sinônimo de malandro para uns para outros é otário.

E o zunzunzum continuava... Até que se ouviu outra queixa, era o Senhor Sapo que de lá do lago coaxava:

– Canto bem que é uma beleza e sou famoso na literatura por ser beijado por uma princesa, mas ser sapo virou sinônimo de feiúra!

– Quanto a isso, meus amigos, eu não sofro preconceito, pois a fama a mim prestada faz jus à minha figura. Pois ao cara bonitão, ri-se as moças de plantão dizendo: “Uau, que gato!”

Enquanto o gato se exibia lambendo as patas todo prosa, latiu o cão de zombaria, dizendo que a fama que dele conhecia era outra história.

– Há gatos e gatos, minha gente! Dizem que à noite todos são pardos, pura balela! Pois esse gato que lhes fala é um gato de panela!

O comentário ao gato enfureceu e ele foi logo afiando as garras...

–Ora, procure o seu lugar. Isso aqui é coisa séria! Você se acha valentão e se diz melhor amigo do homem. Mas todo mundo se queixa que está difícil viver nesse mundo cão... e se ainda faz muxoxo, lembre-se que ninguém quer levar vida de cachorro!

Era uma zoada danada, ninguém mais se entendia. Todo mundo de algo tinha protestado, mas a nenhuma solução chegou porque a assembléia acabou numa briga de cão e gato!

9 de abril de 2011

Mi Otoño


Ahora que el viento, su fuerte labor comienza
temblan mis manos, se cae la pluma...
y sólo la brisa de estas mañanas
refresca mis pensamientos

Ahora que el paisaje se decolora ante mis ojos
todo me sabe a desierto frío
y muy adentro, muy adentro mío
una niña gris recoge
hojas secas


Ivana, 31 de marzo de 2011

1 de noviembre de 2010

A Navalha Cega

Sobre a mesa está ela, seu brilho se fora junto a tantos destinos consigo cruzados.
Um homem dorme sobre um leito, sonha um sonho (sabe-se lá qual) como qualquer homem.
Uma navalha ociosa... Quem a deixara ali?
O homem coberto pela vasta sombra ressona... seus sonhos o movem na cama, suas mãos crispadas suam , quando possesso, a navalha impunha...
Gotas de sangue pintam as paredes, mancham a poltrona do carro... água e sabão retiram os rastros.
O homem desperto já não se lembra, é hora da ceia e a navalha está cega na mesa.



Ivana Oliveira

A VELHA MERCÊS

– Tá fazendo-se besta?! Tá fazendo-se besta?! – e cada vez que ela gritava essa frase, dava duas batidas no chão com o calcanhar direito como se fosse algum ritual macabro. Chegava a retumbar o chão da casa. Durante certa fase da minha infância, eu morria de medo daquela senhora misteriosa que possuía um corpo esquelético, meio corcunda, cabelos sempre cobertos por um lenço encardido e aqueles olhos foscos...

Sempre com seu cachimbo na boca, saía à rua apenas pra comprar algum mantimento ou erva pra fumar. Alguns desocupados que tomavam cachaça na mercearia soltavam alguma graça de mau-gosto, ao que ela respondia com uma baforada de cachimbo. Quando ia saindo, o dono da mercearia comentava sempre: “Quem era essa criatura! É verdade... as ironias da vida!” – e fazia uma expressão de piedade.

Depois de um tempo, percebi que quando ela danava a bater o calcanhar e gritar, era sinal de que alguém a perturbava. Era um tal de: – Tá fazendo-se besta?! Tá fazendo-se besta?! – que ela cada vez mais repetia com veemência e a molecada saía em disparada, temendo que vô Jão chegasse com o cipó pra dar umas lapadas nas canelas deles.

– Que foi Mercês? Quem buliu com a senhora?

– Esses fio de uma égua, esses cabrunco... – e desandava a dar todo tipo de xingamento aos moleques que costumavam atormentá-la.

– Fizeram o quê?

– Fica tudo aí mangando d’eu, seu Jão, eu aqui no meu canto trabaiando que nem uma condenada e essas peste vem me pertubar! – queixava-se com sua voz rouca.

Pior foi quando dona Mercês começou a gritar durante a madrugada e bater o calcanhar como só ela fazia. Àquela hora não havia nem pé nem cheiro de menino na rua para incomodá-la. Vô andou achando que era ladrão rondando a casa dela, valente que só ele, pegava logo sua espingarda de caça e partia para apurar as queixas.

– Que ladrão qual nada, Jão! Te aquieta e vem dormir, o que é que Mercês tem naquela casa pra alguém roubar? A velha tá é caducando. – tentava minha avó acalmá-lo. Mas, ele só sossegava depois de ir verificar se tinha alguém. Nada de gente pelos arredores e Dona Mercês insistia que tinha um “neguinho preto” insultando-a e que fazia caretas e a chamava de doida. Aos poucos o vô se convenceu de que a velha Mercês tava mesmo caducando.

Eu cansava de acordar com aqueles berros e ficava todo assombrado, nem tinha coragem de ir ao banheiro, mijava na cama mesmo e no dia seguinte botava o colchão ao sol.

Logo, se espalhou um boato de que Mercês tava vendo alma penada, outros diziam que pela descrição era saci. Mas, os mais céticos diziam que ela estava mais louca que nunca.

A pobre morava a duas casas da nossa, vivia num casebre, que só Deus sabe como ela agüentava aquilo sem conforto nem higiene. Eu de tão curioso, perdi o medo e um dia me ofereci para levar castanhas de caju que o vô tinha assado para ela. Era tardezinha, entrei batendo palmas, ela tava de cócoras acendendo o cachimbo no pequeno forno à lenha que havia num canto do único cômodo da casa.

– Dona Mercês?

– Heim? Tu é o neto que seu Jão cria, né, mô fio? – abriu um sorriso e me olhou com ternura.

– Sou sim senhora. Ele mandou umas castanhas.

– Me dê cá. Diga a seu Jão que Deus lhe pague, viu, nego?

Enquanto ela guardava as castanhas numa lata enferrujada, eu revirava a casa com os olhos. Tudo quanto meus sentidos foram capazes de registrar ficou guardado na minha memória para sempre. A humilde casa de taipa cheirando a fumaça, tinha o teto e as paredes revestidos por teias de aranha cheias da fuligem que vinha do forno. O chão era de terra batida. Sanitário não tinha, ela se servia de um buraco no canto do cômodo que estava coberto por uma tábua, num outro canto, ficava o forno, onde bem ao lado, pendurada por um gancho, tinha uma carne do sol coberta de moscas e abaixo um pote de barro com uma caneca de plástico por cima da tampa. Um pouco afastados dali, um baú com um candeeiro em cima, uma bacia com água e a velha cama de varinhas que ela cobrira com um tapete de retalhos, onde repousava das canseiras da vida.

– Dona Mercês?

– Heim? Tu tá aí ainda, fio?

– É.. eu tava aqui pensando... a senhora não tem parente não?

– Ô mô fio, tua vó já deve de tá te percurano, vai-te embora, caminha!

– Ela sabe que eu vim pra cá. – insistia – A senhora não quis casar não?

– Ô diacho de menino perguntador, ói, fio, vai-te embora que eu vou tomar meu bãim, viu? Ali ó, minha água já ta na bacia. – e indicou a bacia de alumínio perto da cama. Dadas as circunstâncias, fui pra casa ainda mais curioso.

Desde então, voltava àquele casebre sempre que tinha alguma coisa a ser entregue à dona. Eu pinotava do pé de manga do quintal, onde costumava brincar e, saía desembestado quando o vô dizia que tinha algo para a velha Mercês. Ela passou a me agradar sempre com umas moedinhas que eu usava pra comprar doces ou bolinhas de gude. “Tome cá umas nica, fio, pra tu comprar argũa coisa pra adoçar a boca”, dizia.

Eu era a curiosidade em forma humana, ela, um cofre de segredos que eu queria descobrir. Toda vez que se falava da velha lá em casa eu ficava de orelha em pé como cão de guarda. Alguma coisa tinha! Minha avó, às vezes brigava com meu avô por alguma coisa relacionada a ela. Eu nem imaginava o que poderia ser.

Uma tarde incerta, avistou-se no arraial uma senhora magra, trajes reluzentes e sapatos de saltos, daqueles que fazem barulho, um barulho oco.

– Mas... não é a dona Mercês?! – uma senhora perguntou e as outras admiradas se aproximaram da velha, toda lustrosa, o vestido bem demodê, é certo, mas, era muito melhor que os trapos que ela usava.

Ela contou às curiosas que ia ao hospital, talvez ficasse internada, ninguém sabia ao certo que doença era aquela. Algumas arriscavam a falar a palavra no ouvido da outra. Umas apenas diziam quase sussurrando: “parece que é CA”. Eu não entendia aquilo que diziam nem tamanho segredo em torno da tal doença. Só sei que daí a uns dias chegou a notícia que D. Mercês tinha operado e tava muito mal. Meu avô, volta e meia, pegava a camionete e ia à cidade para saber notícias, o quadro piorava a cada dia.

Uma semana depois, a enferma saiu da UTI e estava mais lúcida que nunca. A vó, sem rodeios, comentou:

– Não sei não, já vi muitos casos desses, às vezes melhora num dia e no outro Deus chama, é só o tempo de a pessoa pedir perdão dos pecados e se despedir dos seus.

E foi tão certo, bastou o padre dar a extrema unção e ela receber a visita dos conhecidos que a velha Mercês deu o derradeiro suspiro e fechou aqueles olhos que há muito perdera o brilho.

Levaram o corpo para ser velado na igreja e de lá partiria para o cemitério. Não queriam que eu me aproximasse do caixão, mas eu fui... Me lembro que senti tristeza, mas, sem vontade de chorar. Era tudo muito estranho, eu a via conversando, fumando o cachimbo, gritando e batendo o calcanhar no chão pra espantar os moleques e naquele momento, era apenas um corpo inerte. Pra quê aquele algodão no nariz? As velas, as flores, a alfazema, a cantoria das beatas, tudo novo pra mim. Meu avô chorava como se tivesse perdido um ente da família, era um desespero só. Peguei uma flor e depositei perto do braço dela. Olhei seu rosto de novo e pela última vez, tinha uma expressão plácida e parecia haver remoçado com a morte.

Eu nunca descobri o segredo dela, quando tentava conversar sobre isso com meu avô ele tratava de mudar de assunto, ficava com o semblante melancólico.

Só sei que naquela noite, quando me deitei parecia ouvir ao longe sua voz rouca:

– Tá fazendo-se besta?! Tá fazendo-se besta?!
 
 
 
Ivana, 09/08/08

1 de octubre de 2010

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A madrugada serenou as vozes

mas incitou tudo o que grita em mim

eu sou espera e sou corrente

seguindo o mesmo curso

aquela mulher de alguns minutos atrás

lavou-se naquelas águas rio abaixo

esta mulher renascida em outras águas

no instante seguinte

será a mesma?

será outra?



Ivana Oliveira
de marcha à ré aos Eus esquecidos,

na sordidez dos dias desbotados,

deixa-se levar esse caminhante perdido,

as vozes da culpa insistindo bem no fundo,

e entre nós um grande abismo:

o Silêncio...



Ivana, 30-05-10. às 21h.

24 de enero de 2010

La Luna y yo


A Susana Suárez


Yo le conté a la Luna
mis penas y mis anhelos,
si de todos me fugaba en sombras,
a ella revelé mis secretos.


Yo, a la Luna, supliqué en rezos...
que la noche no fuera tan larga
y si así insistiese en ser,
que al menos el soplo del viento
fuese suave hacia mi piel.


Yo, a la Luna, dediqué mis párpados,
ella, como una madre celosa,
mandó que el viento destapara el cielo,
astros y estrellas se asomaron
a alumbrar mis tristes versos.


Yo agraciada, quise a la Luna
regalar mi más dulce poesía,
y ella me dejó dormida,
bajo los rayos de la mañana,
coronada de rocío.


Ivana, 23 de enero de 2010

30 de agosto de 2009

¿Cuántos ojos tiene la mujer que llora?


Mujer llorando - Pablo Picasso

¡Oh!, ¿Cuántos ojos tiene la mujer que llora?
¿Cuántos hijos le quitaron?
¿Cuántos amores suyos la tierra se tragó?
Un ojo mira hacia Dios,
El otro se cae en suelo triste.
¡Oh, cuán terrible se clavan esos ojos
Cuando la noche rompe
la certidumbre terrena!
La mujer llora las penas
Que el hombre lleva a la tumba
¿Cuantos ojos lloraron por esa herida profunda?
Ojos que la vida no seca
O que el tiempo se olvida...

Ivana Oliveira, agosto de 2009.

18 de agosto de 2009

Carta a Guaratatuba


Hoy te escribí una carta, amor,
Con agua cristalina del Río de la Plata.
Fui tallando su forma
Palabra por palabra.

Todas las frases bellas se fundieron de pronto
En las yemas de mis dedos.

No sé que secretos te contaron aquellas,
Mis palabras, escritas en el agua,
Escritas en las nubes
que transportan los vientos…
Mas cuando las encuentres,
Cuando tus ojos vean esos dulces misterios y
Se encuentren con ellos para reconocerlos
Será como una fiesta de alas desatadas.
Serán una cascada que vendrá a mi encuentro,
Desde Guaratatuba hasta mis besos…

Autora: Susana Suárez
En la ciudad de Montevideo a los dieciséis días del mes de Agosto del año 2009.

18 de julio de 2009

Tormenta Anunciada

O uivar do vento levantou meus temores,
Um suave anuncio de tormenta vindoura,
Açoitando o salgueiro que apenas chora,
Seguido de clarões, fez crescer rumores...

Com fúria, rasgou-se um raio prateado,
Partindo de golpe, este peito ao meio;
Dia se fez noite sob o olhar orvalhado,
E meus sonhos converteram-se em medo.

Com seu manto negro cobrindo as estrelas
Inverteu a ordem do que já se sabia:
Antes vem bonança, depois agonia.

E, perdido, mero náufrago do acaso,
Sob golpes da chuva miro a lama e vejo:
Vítima e vilão de seu próprio desejo.

Ivana Oliveira, 18 de julho de 2009.

13 de junio de 2009

Enigma


Rio e Margem (Río y Orilla)



leva em tuas correntes
as minhas flutuantes ânsias
e deságua em mim
tuas águas mansas

leva-me ao teu leito sereno
onde nunca estive e sempre estou em déjà-Vu
almas distintas, mesmo pulsar, mesmo fluir

yo me conformo en esperarte
aunque llena de anhelo
te espero y me miras
y te miro
eres mi Río
yo soy tu Orilla

Ivana, 13/06/09

Saudosismo

eu canto porque o momento insiste
e assumo: tenho fases de ser triste
por que negaria?
se mais felizes fomos
quando de amor e tuberculose
se padecia

Ivana, 13/06/09.

(In)quieto


a pálpebras abertas foi-se a noite
os passos amanhecem em descomeço
e das janelas ventos sopram o acaso
mas não me levam com eles
e pergunto a pálidas paredes
que ser cativo habita esse quarto?

Ivana, 13/06/09
asas pra serpentes
cálice de mártires
casas sem sonhos - gaiolas de gente!

eu, clandestina, a bordo
estranhada e estrangeira
aventurei-me a ter vez
uma voz respondeu-me ao revés:
cala-te, querida
trota a tu sina
essa é a vida...

Ivana, 13 de junio de 2009.